Maragatos em Osório: 120 anos da tomada da vila de Conceição do Arroio

10/04/2015

Por Rodrigo Trespach
Historiador e escritor, autor de cinco livros e diversos artigos
para revistas nacionais e internacionais. É membro da AELN.
www.rodrigotrespach.com

1900

Arquivo Público Municipal Antônio Stenzel Filho.

Popularmente o dia 12 de abril é lembrado em Osório como a data da instalação do município, em 1858. Mas há um 12 de abril pouco lembrado e mais trágico, o 12 de abril de 1895.

Antecedentes

Iniciada e travada principalmente em território sul rio-grandense entre os anos de 1893 e 1895, a Revolução Federalista é, com certeza, a mais sangrenta das revoluções ocorridas no país. Estima-se que o número de mortes  possa ter ultrapassado 10 mil.

As primeiras décadas da república foram de instabilidade política em todo país, mas no sul, a administração de Júlio de Castilhos (Partido Republicano Rio-Grandense, PRR), permitiu o acirramento de oposições e exaltação de ânimos em um Estado da federação onde os debates políticos e a forte influência militar da aristocracia eram históricos. Em oposição aos republicanos estavam os liberais e o Partido Federalista, criado por Gaspar da Silveira Martins (1835-1901), que defendia um sistema parlamentar e a revisão da constituição de 1891. Os republicanos eram conhecidos como pica-paus; os partidários de Silveira Martins como maragatos.

Em Conceição do Arroio (hoje Osório), os republicanos pica-paus eram liderados pelo coronel Antônio Marques (1834-1913) que nos tempos do império fora do Partido Liberal, mas que se posicionou ao lado do governo republicano. Marques seria o primeiro intendente nomeado durante a República. Os liberais, por sua vez, eram liderados pelo major Luiz Henrique Moura de Azevedo (1848-1893), advogado e deputado da Assembleia Provincial (1889-1890).

Conceição do Arroio, 1891-1894

Conforme o resultado das primeiras eleições, em maio de 1891, em Conceição do Arroio os republicanos eram maioria. No pleito que elegeu Júlio de Castilhos para seu primeiro mandato, a vitória foi esmagadora: 477 votos para os republicanos, 194 para os “coligados”.

No entanto, a política estadual e brasileira ainda estava longe de uma definição. Em novembro de 1891 Júlio de Castilhos foi deposto do governo do Estado. No lugar de Castilhos, assumiu uma Junta Governativa, heterogênea, composta por Assis Brasil, Barros Cassal, Domingos Alves Barreto Leite e Manuel Luís da Rocha Osório.

As coisas esquentaram em todo o estado. No mês seguinte, em 7 de dezembro, em Conceição do Arroio, Antônio Stenzel Filho, poeta, escritor e partidário republicano, foi espancado publicamente, depois de sair do bilhar no Hotel Central, hoje Sobrado dos Bastos. O líder federalista, major Azevedo, é acusado de ser mandante.

No dia 14 de dezembro, o major Azevedo é nomeado presidente do conselho diretivo de Conceição do Arroio. No dia seguinte, circulam rumores na cidade de que tropas lideradas pelo maragato Baiano Candinho estariam nas proximidades de Conceição do Arroio. Exultante com a situação que é favorável aos partidários de Gaspar da Silveira Martins, major Azevedo eleva Baiano Candinho, um desertor cearense da Guerra do Paraguai, ao posto de “major”. Os rumores são verdadeiros.

Com um clima tenso e uma tentativa republicana de voltar ao poder, em 4 de fevereiro de 1892, forças maragatas acampam em Conceição do Arroio. As lideranças federalistas, entre eles Baiano Candinho e o padre Manoel Paz Fernandes, se reúnem na casa do major Azevedo. O objetivo é organizar o Partido Federalista no Litoral Norte. O novo partido havia sido fundado por Silveira Martins com ex-liberais e dissidentes do PRR.

Quatro meses depois, em 8 de junho, a Junta Governativa finalizou o processo eleitoral e José Antônio Correia da Câmara assumiu o governo do Estado. A dança das cadeiras continua; oito dias mais tarde Correia da Câmara entrega o governo a Vitoriano Ribeiro Carneiro Monteiro.

No dia 20 de junho, o coronel Antônio Marques anuncia ao novo governo a retomada da vila de Conceição do Arroio das mãos dos maragatos, agora postos na ilegalidade. Na fuga dos federalistas – entre os dias 18 e 19 – é morto o padre Fernandes, com um tiro nas costas, na hoje Várzea do Padre. Entre os presos estão João Enet – o fundador da Borússia – e Boroski, obrigado pelos republicanos a guarnecer o corpo do padre. Resistindo à prisão, o major Azevedo foge e se refugia em Maquiné e Três Forquilhas.

Nove meses depois, já com Júlio de Castilhos novamente no governo do Estado e com a guerra civil em andamento, em março de 1893 o major Azevedo é capturado. Segundo os federalistas ele seria degolado enquanto se dirigia preso a Porto Alegre pela escolta da Brigada Militar. Dizem as fontes orais que ele próprio cavou a sepultura. O jornal A Federação informou que houve um ataque federalista à escolta na tentativa de libertar Azevedo. No combate, às margens da lagoa dos Barros, teriam sucumbido o major e mais dois soldados. Qual terá sido a verdade?

Com a morte do major Azevedo e do Padre Fernandes, em 1894 a Revolução transcorre longe do Litoral Norte, com o cerco da Lapa e a tomada de Curitiba, no Paraná, e os sangrentos combates em solo gaúcho: Capão do Boi Preto, Pulador e Carovi, onde Gumercindo Saraiva, o líder federalista, é morto.

Hotel Amaral

Arquivo Público Municipal Antônio Stenzel Filho.

Epílogo

No começo de 1895 a revolução estava perdida para os maragatos. As chances de vitória haviam se esvaído em 1894, quando Floriano Peixoto conteve a Revolta da Armada e pode enviar tropas federais para sul. Assim, os federalistas foram expulsos do Paraná e de Santa Catarina. A morte de Gumercindo Saraiva em agosto apertava ainda mais o cerco aos rebeldes. Nem mesmo a troca no governo federal – Peixoto fora sucedido por Prudente de Morais -, salvaria os federalistas da derrota.

Em abril de 1895, uma grande força federalista estava reunida nas encostas da Serra Geral. Era um grupo heterogêneo; uma boa parte do efetivo havia lutado no cerco da Lapa e na tomada de Curitiba, na campanha de Gumercindo Saraiva no Paraná, e vinham desde lá sendo acossados por forças do governo federal. Ainda havia gente de Cima da Serra, federalistas de Palmares, patrulhenses e até mesmo arroienses.

Não há fontes que confirmem o número de combatentes, mas eram mais de 400 homens. À frente vinham homens como Vicente José Gomes, Leôncio Leão, José Rodrigues, José Magalhães, José Cristino e Baiano Candinho. Este, um dos mais conhecidos, noticiado pela imprensa da capital como “famigerado bandido”, vinha à testa de cerca de 120 homens do “Esquadrão Josaphat”. O esquadrão de Candinho era um misto de tudo o que havia na litoral: serranos, colonos alemães, ex-brigadianos, forasteiros, colonos, peões.

Conceição do Arroio, 12 a 16 de abril de 1895

Na tarde de 12 de abril de 1895, uma sexta-feira, Conceição do Arroio foi surpreendida pelo barulho do tiroteio, o tropel e a gritaria da tropa federalista que entrara na vila, vindo da Serra margeando as lagoas do Marcelino e do Peixoto. Não houve tempo para preparar defesa alguma. Desavisada e indefesa, a população de Conceição do Arroio só pode se esconder nos matos dos arredores. A pouca força policial que havia se entrincheirou na intendência (no local em que hoje se encontra o prédio do Hotel Amaral, na rua Marechal Floriano). O “bravo e denodado” capitão Estevão de Oliveira Brandão, com um pequeno grupo de “heroicos republicanos”, estava cercado e sem comunicação.

No dia 13, o tenente-coronel Álvaro Afonso Pereira Capaverde, comandante do 16º Regimento de Cavalaria da Guarda Nacional, sediado Torres, recebeu informações de que uma força federalista cercara Conceição do Arroio no dia anterior. Pego de surpresa, Capaverde só conseguiu organizar o 16º RC no dia seguinte.

Enquanto isso, os maragatos enviam ao intendente arroiense um ultimato: “vos intimamos a render as armas, pois que assim poupareis vossa vida e de vossos companheiros. Garantimos-lhos todos; assim, responda sem demora”. Brandão não se entrega. E tem razão de sobra. Segundo Stenzel Filho, em A Vila da Serra, o prédio era um sobrado e sob ele estava “um quartel de polícia, com três xadrezes muito escuros e sem assoalho”. O capitão-intendente estava assentado sob aquilo que a tropa federalista viera buscar: armamento e munição. Entregar a intendência poderia significar entregar a cidade de vez aos rebeldes.

Com os comandantes negociando um acordo de rendição, os maragatos, em sua maioria peões, se entregaram ao saque. O comércio foi extorquido. Nada menos do que duas carretas de charque, farinha e rapadura foram saqueadas dos armazéns. Botas e roupas desapareceram das prateleiras. Da população, quem pode fugiu.

Baiano Candinho não está preocupado em saquear, seu desejo é vingar a morte do Padre Fernandes e do major Azevedo. O sargento Francisco Gonçalves da Silva, que degolara Azevedo dois anos antes, tivera a coragem de desfilar em Três Forquilhas com o cavalo e os arreios do major. Afronta que Candinho queria devolver. Era uma questão de honra sentar na cadeira do intendente Brandão.

Seguem as tratativas. Novamente insistem os maragatos, em nome dos “sentimentos de humanidade” e do “caráter rígido e honrado” do capitão. Entregando-se, Brandão pouparia a vida de “muitos pais de família”. Quem dá a “palavra de honra” é o coronel Vicente José Gomes: ninguém será morto. Brandão envia resposta por intermédio do tenente Lorino Cunha: pede mais um dia.

Mas enquanto pede mais um dia, temendo ser degolado Brandão trama a fuga. Ele enterra o armamento no chão do quartel que está abaixo da intendência. Às 6 horas e 50 minutos, da segunda-feira, dia 15 de abril, Brandão recebe o último bilhete federalista. Assinam o major José Ricardo de Magalhães e o tenente Lorino Cunha. Os republicanos têm meia hora para se entregar. Brandão precisa salvar a si mesmo, a vida dos companheiros e o “sossego de toda a população”. Os fatos se precipitam. Não é possível saber o que houve. Mais tarde, o jornal A Federação irá acusar a tropa federalista de atear fogo as casas próximas da intendência, incluindo a do major Antônio Marques, líder republicano local. Fato é que o capitão Brandão escapou “por uma picada” e a intendência foi incendiada. Quem teria posto fogo, federalistas no ataque ou os próprios republicanos na fuga? Nunca se saberá em definitivo.

Avisados tardiamente, só no dia 15 de abril uma tropa republicana sob o comando do tenente-coronel Firmino Prates parte de Viamão em socorro de Conceição do Arroio. Outro grupamento se organiza em Santo Antônio da Patrulha. No caminho, encontrarão os fugitivos da intendência; o capitão Brandão entre eles.

Em Conceição do Arroio, os federalistas sabem que não há tempo a perder, eles não têm muita munição. Sabem também que tropas republicanas estão a caminho, se não conseguirem tomar as armas da intendência não podem lutar e serão cercados. Com o incêndio tudo está perdido. É provável que não tenham sido eles os culpados pelo incêndio. Sem alternativa, na manhã de terça-feira, 16 de abril, os federalistas deixam Conceição do Arroio. Divididos. Uma parte segue para a Serra, outros irão se confrontar com as do tenente-coronel Firmino Prates nos campos próximos a Lagoa dos Barros – isso três dias depois, em 19 de abril.

Na quinta-feira, 18 de abril, o 16º RC de Torres chega a Conceição do Arroio, por volta de 3 horas da tarde. O destacamento é pequeno; uma parte da tropa se posicionou no Morro Alto, guarnecendo uma possível rota de fuga dos federalistas. Sem saber que Firmino Prates se aproxima vindo de Viamão e temendo ser cercado por federalistas, durante a madrugada de sexta-feira, dia 19, o 16º deixa a cidade.

Não há mais federalistas, a vila está livre; mas foi humilhada, para sempre. Um de seus mais ilustres escritores escreverá 40 anos depois a triste história do assaltante. Na memória da população, Baiano Candinho será sempre lembrado como um “bandido famigerado”. Ele foi impedido de sentar na cadeira da intendência, mas humilhou a orgulhosa Conceição do Arroio, terra do Legendário.

Ofensiva final, junho de 1895

Dois meses depois, entre 7 e 9 de junho, o restante da tropa federalista em fuga se bate contra os castilhistas no Passo no Cornélios. No dia 10 de junho o combate derradeiro da revolução no litoral gaúcho, no Pântano do Espinho, no Vale do Três Forquilhas. Derrotados em seu plano de ofensiva final contra Torres, o restante dos federalistas deixam o litoral e se refugiam na Serra. Desbaratados, sem armamento, munição ou apoio político é hora de fugir, se esconder.

Em 23 de agosto de 1895 a paz é assinada em Pelotas; terminou a revolução. O governo concede anistia aos revoltosos, mas ainda não é fim. Os federalistas pagarão caro pela ousadia, no Litoral serão executados um a um, até uma Noite de Reis de 1898, quando o líder do ataque a Conceição do Arroio será finalmente abatido, degolado. Baiano Candinho entrará para história através da pena de Fernandes Bastos (1885-1938), um intendente que ele não conheceu.

Nem mesmo os republicanos vitoriosos irão saborear a vitória. Tão logo foi assinada a paz, capitão Brandão é destituído do cargo de intendente. O que leva a crer que Júlio de Castilhos o responsabilizou pela queda da cidade e, principalmente, por ter ateado fogo à intendência – com tudo o que havia nela, armas, munição e toda a documentação pública e administrativa da vila, – e à casa do coronel Antônio Marques, ninguém menos do que o chefe local.

Esta é a história, até hoje não contada ou contada em partes.

Ed 96 de 23.04.1895 Ataque a Vila em 12.04_capa

Reprodução do acervo da Biblioteca Nacional (RJ)

*O artigo em sua forma integral estará disponível na revista Doispontos, 2ª edição de 2015.