“Então agora policiais podem entrar em salas de aula e bater em alunos e não dará em nada?” Desabafa professora de aluno agredido

A Polícia Civil está investigando a conduta de um policial militar acusado de ter dado um tapa no rosto de um aluno de 12 anos do sétimo ano da Escola Municipal de Ensino Fundamental Osvaldo Bastos, em Osório. O caso ocorreu na última quarta-feira (23).

A professora do aluno que teria sido agredido desabafou nas redes sociais e deu sua versão sobre o ocorrido.

Veja abaixo na íntegra.

“POLICIAIS, GRITOS, MÃOS PRA TRÁS E VIOLÊNCIA – isto será educação daqui pra frente em nossas salas de aula?

Colegas, amigos, professores, professoras e demais que se interessem por educação dentro e fora das escolas.

Ainda não consigo acreditar no que aconteceu em nossa escola na manhã desta quarta-feira, dia 23 de novembro de 2016.

Infelizmente, muitos dizem que policiais passam por treinamentos de muita humilhação em suas formações e saem às ruas vendo a violência como solução em momentos não necessários. Acredito que a maioria dos policiais trabalhem com dedicação e respeito. No entanto, ouvimos falar no dia-a-dia de excessos por parte de alguns soldados. Ao tentar entender o episódio que presenciei em meu trabalho, vi esta como uma das explicações possíveis para o ocorrido.

Bem, sei que neste dia estávamos eu e meus alunos assistindo a última das apresentações feitas por eles para a minha disciplina na biblioteca de nossa escola (que aliás ficaram lindas) e fomos chamados pra voltar a nossa sala de aula. Por acaso, neste dia, a professora que trabalha com meu aluno que tem necessidades especiais estava presente. Não havia dia melhor para ter mais uma professora em minha aula.

Eu, naquele momento, ainda não sabia que antes naquela manhã dois alunos desta turma haviam brigado, e que devido a isto a Polícia Militar havia sido chamada na escola. E então, fomos avisados que duas pessoas iriam dar um recado pra nossa turma. Fiquei feliz pois adoro quando palestrantes vem à escola. Pedi que todos sentassem, já de volta à nossa sala, e aguardamos.

E então ocorre o inesperado. A entrada aos gritos de dois policiais pedindo para todos ficarem em pé de mãos pra trás. A imagem não sai de minha memória. Eu mesma me vi naquela posição, me senti como se estivesse em um presídio. Mas, diferente dos meus alunos, crianças e adolescentes que estão começando suas vidas, já sou adulta e percebi que podia baixar meus braços e baixei-os, e me sentei, tensa e olhando pra baixo.E então observei enquanto a gritaria continuava.

O tom alto e firme dos policiais lembrou-me a abordagem que vi apenas usada com presos nas penitenciárias. Mas então lembrei que ainda estava em minha sala, em minha aula, com meus alunos. O policial gritava sobre a importância do respeito e da autoridade. Mas onde estava o respeito pela minha autoridade? Não fui consultada em momento algum sobre a possibilidade de dois homens fardados gritarem de modo tão ofensivo e exagerado em frente a mim e aos meus alunos.

Talvez os policiais quisessem impor respeito naquele momento, mas todos sentimos nada além de medo. Ergui os olhos e agradeci pois minha colega estava em minha aula neste dia, alguém que testemunhava também o que eu via.

Toda a situação não parecia real. Mas, então, quando pensava que eles iriam dizer que era apenas uma simulação para vermos como é estar em um presídio e a sessão de gritos terminaria, um dos policiais afirma que um aluno riu (talvez de nervoso, pois até eu estava achando que era uma brincadeira, algo que eu nunca havia visto nem nas mais complicadas realidades sociais em que já trabalhei, o que não é o caso desta escola), e eu não vi o aluno rir, pois olhava pra baixo, mas o policial o agarrou pelo pescoço e o carregou até o quadro. E gritou para que ele risse mais. O aluno disse que não iria rir, então o homem, na confiança de que a sua farda lhe dá direito a tudo, desfere um tapa no rosto do aluno. Minha colega, questionando o ocorrido, levantou, passou entre os policiais e saiu da sala.

Neste momento meus olhos marejaram em lágrimas, pois mesmo que fosse o mais difícil dos alunos que estivesse ali, a situação de humilhação e violência vivida por ele não se justifica em uma sala de aula, em frente a todos os colegas, todos em pé e de mãos pra trás. E ele não tinha nada ver com a briga ocorrida na turma no começo do dia. A sensação de impotência foi tanta, que sem forças engoli todos os meus ideais de educação junto com as lágrimas. Não consegui me mexer. Fiquei com medo que outro tapa ocorresse. Com medo, medo de uma situação que eu nunca esperei viver durante a minha aula como professora. O segundo policial pediu que seu colega parasse. Mas ali o aluno ficou mais um pouco, de pé com o rosto abaixado em frente ao quadro.

O policial gritou mais algumas frases abordando suas ideias sobre respeito aos professores e às pessoas, dizendo que todos ali deveriam aprender a respeitar os outros. Suas ações em total contradição com suas palavras. Então liberou o aluno a voltar a seu lugar. Levantei meus olhos e aguardei. Cada segundo pareceu uma eternidade. Eles disseram mais algumas palavras sobre o discurso de respeito, que dali em diante a vida seria assim, e fez-se silêncio. Silêncio. E então se despediram e saíram. Os policiais e o diretor da escola que os acompanhava.

Ficamos eu e meus alunos. Meninos e meninas me olhando do alto dos seus doze, treze anos. Olhos nos olhos. O que fazer? Alguns choravam, outros tremiam, lágrimas desceram pelo meu rosto. Mas as escondi e então pedi que sentassem. Logo os alunos começaram a expressar seu sentimento de revolta. Todos indignados e assustados pelo excesso dos policiais. O que dizer? O que pensar? Pedi que ouvissem e reforcei que SIM, devemos respeitar as autoridades, professores e policiais. Mas pedi, que acima de tudo, JAMAIS repetissem o exemplo que tinham presenciado. Que jamais resolvessem conflitos com violência, que bater nos outros não é certo, seja lá qual for a situação, que evitem ao máximo resolver as coisas partindo para agressão. Era tudo que eu conseguia dizer. E que ficassem tranquilos pois com certeza policiais entrarem em salas para agredir e gritar é algo que não iria se repetir.

E tentei cumprir minha promessa.

No entanto, ao chegar na delegacia, o inesperado, a promessa que fiz aos meus alunos estava difícil de cumprir. Fui ameaçada pelo próprio policial agressor que pediu meus documentos e disse que iria me processar por calúnia caso eu registrasse o caso. Eu disse que tudo bem, pois já havia entrado em contato com minha advogada. O que fazer? Permitir que “não dê em nada” como muitos disseram que iria acontecer? Então agora policiais podem entrar em salas de aula e bater em alunos e não dará em nada? É isso? Me questiono a cada minuto sobre o porquê de tudo isso. Me questiono como professora se devo permitir isso em minha aula. E sempre penso na mesma resposta: isso não pode se repetir em outras escolas. Em nenhuma outra sala de aula. Podem dizer que não é pra tanto, que não foi nada. Mas eu vejo sim este episódio com um possível primeiro passo de violências que podem acontecer com mais e mais alunos em outras salas de aula.

Então quero deixar claro que cada segundo daquela abordagem similar à de um presídio dentro da minha aula não será esquecida. Nunca presenciei tanta incoerência. Dizer que querem ensinar respeito fazendo o que fizeram não faz o menor sentido. Nenhum dos alunos deveria ter este tratamento. E há centenas de medidas que podem ser tomadas com estudantes que não incluem gritos, mãos pra trás e tapas. CENTENAS.

Houve diversos danos morais e existenciais naquela manhã. E farei minha parte para que nenhuma outra professora ou professor, ao menos em nossa cidade, tenha que ver o que eu vi.

Se investissem em nós, professores, e em nossas escolas, aí sim estariam resolvendo alguma coisa. Gritar e bater por respeito só gera revolta e medo. Queremos aulas de arte, de música, queremos melhores laboratórios e quadras esportivas. Queremos nossos salários em dia. Queremos respeito e acolhimento para nossos alunos. Façam isso e dentro de vinte anos teremos muito menos criminosos e menos cadeias. Vários países já fizeram isso. Demora, mas o resultado valeria o investimento.

Policiais e cidadãos que querem mudar algo dentro das escolas, deveriam ao menos uma vez na vida abrir algum livro sobre políticas educacionais (desse século de preferência) para entender o seguinte, os maiores criminosos não são nossas crianças e adolescentes. Nossos alunos são a solução para o futuro, não o problema. Os maiores criminosos estão na maioria das vezes vestindo ternos ou fardas em salas refrigeradas em Brasília ou em outras organizações.”,  finalizou em seu desabafo a professora.